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Da fumaça ao traço: Nanquim, a tinta que atravessa 2.000 anos

Foto do escritor: Ana Clara Oliveira
Ana Clara Oliveira
2 de set.
3 min de leitura

Há tintas que servem apenas para preencher uma superfície. E há tintas que carregam, dentro de si, o peso de uma civilização inteira. O nanquim pertence a esta segunda categoria, e talvez seja por isso que, sempre que o utilizo, sinto que estou tocando algo bem mais antigo do que o próprio gesto que faço.


Uma tinta nascida de fumaça

A história do nanquim começa na China, há mais de dois mil anos, num tempo em que escrever e desenhar ainda eram, praticamente, o mesmo ato. Os antigos artesãos chineses descobriram que a fuligem, aquele pó escuríssimo que resulta da combustão incompleta de materiais orgânicos podia se transformar em pigmento.


Bastava suspendê-la numa solução aquosa e estabilizá-la com um aglutinante, geralmente uma resina próxima da goma-arábica, para que o pó se tornasse traço, e o traço se tornasse permanência.


O nome que hoje usamos, curiosamente, não descreve a substância, mas um lugar. Nanquim vem de Nan Jing, "capital do sul", uma das cidades onde essa tinta era produzida e que, ao longo da história chinesa, chegou a ser capital em diversos momentos. É interessante pensar que carregamos, em cada frasco, o nome de uma cidade como se a tinta nunca tivesse esquecido de onde veio.



Do sinal ao símbolo

Não é exagero dizer que o nanquim ajudou a construir a própria ideia de escrita organizada na China. Foi com ele que se registraram os primeiros sistemas unificados de caracteres, ainda na Antiguidade, e não por acaso os primeiros grandes mestres da caligrafia não eram artistas no sentido que damos hoje à palavra, mas letrados e funcionários do Estado. Homens para quem escrever bem era também uma forma de exercer autoridade e refinamento.


A tinta, tradicionalmente, não era líquida como a conhecemos. Vinha em barras sólidas, muitas vezes decoradas com inscrições e motivos minuciosos, verdadeiras miniaturas de arte que se dissolviam apenas no momento do uso, sobre uma pedra de tinta, com um pouco de água.


Havia algo de ritual nesse processo: preparar a própria tinta antes de poder usá-la era, também, uma forma de preparar a mão e o pensamento.

Os primeiros instrumentos que a aplicavam eram simples: hastes de bambu com a ponta talhada em bisel, e mais tarde os pincéis que se tornariam, eles próprios, símbolos da cultura chinesa. Sobre seda, e depois sobre papel, o nanquim revelou uma qualidade rara: a capacidade de criar, com uma única cor, uma escala inteira de tons, do cinza mais tênue ao preto mais denso.




Uma travessia pelo mundo

Como quase tudo que nasce grande, o nanquim não permaneceu confinado à sua origem. Atravessou o mar até o Japão, onde ganhou uma versão própria, conhecida como sumi, e deu origem a uma das expressões mais contemplativas da pintura oriental: o sumi-ê, em que a economia do traço vale tanto quanto o próprio traço.


Séculos mais tarde, chegaria também ao Ocidente, onde encontraria mãos tão distintas quanto as de Leonardo da Vinci e Albrecht Dürer, e, já em outro tempo, as de Hokusai e Gustave Doré; artistas separados por geografia e por século, mas unidos pela mesma confiança num material capaz de sustentar tanto o rigor do estudo anatômico quanto a fantasia de uma ilustração.


Com a industrialização, o nanquim deixou de depender exclusivamente de processos artesanais e passou a ser produzido em maior escala, com fórmulas mais estáveis e menos tóxicas do que as versões antigas que, vale lembrar, continham por vezes metais pesados na composição. O essencial, porém, permaneceu: carbono finíssimo, suspenso, à espera de um pincel.




Por que ainda escolho o nanquim


Talvez o que mais me toque nessa história não seja o detalhe técnico, mas a persistência. Em dois mil anos, surgiram inúmeras tintas que tentaram substituí-lo, algumas mais práticas, outras mais baratas. Poucas resistiram ao tempo como ele.

Quando pego um pincel com nanquim, gosto de pensar que estou repetindo, à minha maneira, um gesto que começou muito antes de mim: o de transformar fuligem em significado. E há uma leveza curiosa nisso, a de saber que, apesar de tudo o que mudou ao longo dos séculos, o preto mais simples do mundo continua sendo, também, um dos mais significativos.

 
 
 

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